O mal-estar que molda nossa era política e emocional.

Por: João Francisco Severo-Santos


Vivemos em um tempo curioso: nunca tivemos tanto acesso à informação, à conexão e às promessas de liberdade, mas parece que nunca estivemos tão exaustos, agressivos e inseguros. O sofrimento, que antes se expressava em crises íntimas, hoje se move como uma onda coletiva que atravessa as redes, as casas e as conversas. Ansiedade, depressão, raiva constante, medo do outro e um cansaço que parece não ter fim, tornaram-se o pano de fundo emocional da contemporaneidade. A pergunta inevitável, e cada vez mais frequente, é: por que, mesmo com condições de vida melhores do que a dos nossos antepassados, ainda sofremos tanto?




A resposta, ou ao menos uma parte dela, está no diálogo entre psicologia e política — duas áreas que interagem no modo como organizamos nossa vida pessoal e coletiva. O sofrimento não é somente psíquico, também se reflete na atividade política; e o mal-estar do indivíduo configura uma engrenagem estrutural do sistema politico que vigora desde a antiguidade, mas que, agora, tornou-se intenso numa escala sem precedentes.


Sigmund Freud, o pai da psicanálise, escreveu em 1930 que “a civilização exige uma renúncia pulsional” — quer dizer, toda sociedade cobra de seus cidadãos que abdiquem de parte de seus instintos, desejos e impulsos em nome da coexistência e da segurança (Freud, 1930/2010). Esse pacto, embora doloroso, garantia um equilíbrio mínimo: abro mão da satisfação plena em troca de pertencimento e proteção. No entanto, nossa civilização neoliberal e digital parece ter rompido esse contrato. Continuamos renunciando — ao descanso, ao silêncio, à privacidade —, mas já não recebemos quase nada em troca além de ansiedade, competição e raiva. O sofrimento, em vez de ser o custo da vida em comum, virou sua linguagem mais exposta.


Hoje, até mesmo o desamparo foi colonizado. As plataformas digitais, que prometiam democracia e diálogo, transformaram-se em arenas emocionais onde o sofrimento é publicizado, julgado e explorado. Redes sociais capturam nossas fissuras afetivas e as transmitem em tempo real. A raiva, o medo e a indignação tornaram-se as moedas mais valiosas da comunicação. Quanto mais intensos os sentimentos, mais engajamento, mais visibilidade e, paradoxalmente, mais solidão.


O filósofo Byung-Chul Han (2021) diz que vivemos sob uma “psicopolítica”: um regime no qual o poder utiliza a repressão física como segunda via. Porque, é mais barato e eficiente seduzir, estimular e capturar o sujeito através de sua própria liberdade. O sujeito do século XXI acredita ser livre porque escolhe e fala sem filtros, mas, na verdade, é constantemente moldado por sistemas que administram seus afetos e opiniões. As redes, os algoritmos e o mercado produzem estados emocionais que mantêm as pessoas continuamente conectadas, polarizadas e dependentes.


Nesse ambiente, a fanatização política não é apenas um descompasso ideológico... é uma condição compartilhada, um tipo de fé. As identidades políticas contemporâneas funcionam como novos sistemas de crença totalizantes. Para muitos, o pertencimento a uma “tribo” política oferece o que faltou nas comunidades pós-modernas: propósito, pertencimento, significado (Bauman, 2007). O custo, no entanto, é alto. O outro deixa de ser um diálogo sendo visto como inimigo. O confronto constante, alimentado por narrativas simplistas, substitui a escuta e o pensamento. Freud (1921/2012) já alertava que as massas buscam espelhos, não diferenças. Contudo, num ambiente onde a competição é a lei, precisamos do “outro hostil” para sentir que existimos.


Esse fenômeno é nefasto e perigoso, mas lucrativo. Plataformas e campanhas se alimentam de nossa energia emocional. A raiva, por exemplo, é uma das emoções que mais impulsionam compartilhamentos. O capitalismo da atenção, como analisa Shoshana Zuboff (2020), transforma cada reação emocional em dado, e cada sofrimento em estatística. O que antes era uma dor íntima agora é um ativo de mercado. O que as empresas vendem, afinal, não são apenas produtos — são comportamentos afetivos previsíveis.


Mas os efeitos desse sistema vão muito além das telas. Clinicamente, observa-se uma nova forma de sofrimento psíquico: uma mistura de exaustão e vigilância. Pessoas que não conseguem desligar-se, que sentem culpa por cada pausa e medo por cada silêncio. O psicanalista Donald Winnicott (1975) chamava de “espaço potencial” a área interna onde o ser humano brinca, imagina, cria sentido. Esse espaço, hoje, está sitiado. Há tão pouco intervalo entre estímulos que o sujeito não consegue elaborar, somente reage. Vivemos imersos em um fluxo contínuo de indignação e excitação, e isso adoece.


Nas conversas terapêuticas, surgem sintomas novos e emblemáticos do nosso tempo: a ansiedade por estar “do lado certo” das causas, o medo de ser cancelado, a sensação de insuficiência mesmo nos próprios grupos de pertencimento. A política e as redes transformaram-se em um superego coletivo — um tribunal invisível que observa tudo, julga tudo e nunca perdoa. Nessa lógica, o sofrimento deixa de ser experiência e torna-se capital simbólico. Sofrer publicamente é prova de autenticidade; não sofrer é indiferença. Viver se tornou uma negociação constante entre exibir-se e proteger-se.


Essa dinâmica também afeta profundamente a capacidade democrática de uma sociedade. A democracia, como lembra Jürgen Habermas (1984), depende do diálogo racional e do reconhecimento mútuo. Quando a política se converte em palco de afetos, a possibilidade de convivência plural entra em colapso. O debate, então, não busca entendimento, mas catarse. O conflito, que deveria produzir síntese, produz apenas cansaço e ressentimento. Sociedades sustentadas por emoções negativas são mais fáceis de controlar, porque pessoas exaustas têm menos disposição para refletir.


Esse é o ponto em que psicologia e ciência política se encontram: o sofrimento é arma e sintoma. Governos e corporações perceberam que a instabilidade emocional é funcional. O medo mantém o consumo, a raiva alimenta o engajamento e o cansaço enfraquece a crítica. Como resume Michel Foucault (2008) ao tratar da biopolítica, o poder moderno não se impõe apenas pelo controle físico, mas pela administração da forma como os indivíduos sentem e interpretam o mundo. Hoje não se governa apenas pela força, mas pelos afetos.


A espiral de hostilidade e medo que domina as redes e o debate público é, portanto, mais do que um acidente histórico — é um sintoma civilizatório. O sofrimento deixou de ser algo a ser compreendido e se tornou o próprio motor da cultura. Nossas dores são, ao mesmo tempo, pessoais e estruturais. O mais perigoso é que muitas vezes não percebemos que o ódio que sentimos, ou o cansaço que carregamos, não são apenas nossos; são fabricações de um sistema que precisa manter o mal-estar em circulação.


Há, porém, um ponto de esperança. Freud (1917/2022) propôs que o luto — diferentemente da melancolia — é o processo pelo qual damos sentido à perda. Elaborar o sofrimento é transformá-lo em pensamento, e isso requer tempo, escuta e vínculo. No mundo contemporâneo, talvez o maior ato revolucionário seja exatamente esse: desacelerar, escutar, suportar a ambiguidade. Nem toda emoção precisa se converter em opinião; nem toda diferença precisa ser uma guerra.


O filósofo Byung-Chul Han (2018) fala da importância de recuperar o “direito à negatividade”: a capacidade de dizer “não”, de não responder instantaneamente, de manter espaços de solidão que nos devolvem o sentido do humano. Esse gesto aparentemente pequeno — escutar sem reagir — é também político. É a partir dele que se pode reconstruir um espaço público verdadeiro, um lugar menos dominado pela imaginação paranoica e mais aberto à complexidade.


O desafio do nosso tempo é reaprender a tolerar o outro, a dúvida e a imperfeição. Viver em sociedade sempre será um exercício de conflito e renúncia, mas a diferença está em como elaboramos isso. A psicanálise ensina que a saúde psíquica não é ausência de conflito, e sim capacidade de simbolizar o que dói. Politicamente, a lição é a mesma: não há democracia sem convivência com a diferença, e não há liberdade sem escuta.


Se o sofrimento de nossa época se tornou o combustível de sistemas econômicos e políticos, talvez a resistência consista justamente em desalojá-lo desse papel. Fazer o oposto do que se espera: escutar ao invés de reagir, cuidar em vez de combater, pensar em vez de repetir. O sofrimento pode, então, deixar de ser instrumento de controle e voltar a ser fonte de sentido.


Nas palavras de Judith Butler (2015), reconhecer a vulnerabilidade não é sinal de fraqueza, mas condição de ética compartilhada. Talvez o caminho para um mundo menos adoecido comece com esse reconhecimento: o de que somos, antes de tudo, frágeis — e que somente na aceitação dessa fragilidade pode habitar a verdadeira convivência.



Referências

Bauman, Z. (2007). Liquid Times: Living in an Age of Uncertainty. Polity Press.

Butler, J. (2015). Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Foucault, M. (2008). Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes.

Freud, S. (1917/2022). Luto e melancolia. In Obras completas (Vol. XIV, pp. 243–261). São Paulo: Companhia das Letras.

Freud, S. (1921/2012). Psicologia das massas e análise do eu. In Obras completas (Vol. XVIII). São Paulo: Companhia das Letras.

Freud, S. (1930/2010). O mal-estar na civilização. In Obras completas (Vol. XXI, pp. 75–162). São Paulo: Companhia das Letras.

Han, B. C. (2018). Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.

Han, B. C. (2021). Psicopolítica: O neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Petrópolis: Vozes.

Habermas, J. (1984). The theory of communicative action (Vol. 1). Boston, MA: Beacon Press.

Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

Zuboff, S. (2020). A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca

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