O racismo e o inconsciente:
o que a psicanálise ainda tem a dizer
Por: João Francisco
Severo-Santos*
Por que
falar de racismo com Freud e Lacan hoje?
Em 1938, já
velho e doente, Sigmund Freud foi obrigado a fugir de Viena por ser judeu,
diante da ascensão nazista. O pai da psicanálise tornou‑se, ele próprio, alvo do antissemitismo – uma
forma específica de racismo dirigida aos judeus. Décadas depois, Jacques Lacan, retomando e atualizando a psicanálise, afirmaria em entrevistas e textos dos anos 1960 e 1970 que
o racismo tenderia a aumentar no mundo contemporâneo, como
efeito das mudanças do capitalismo e do
enfraquecimento de certos laços sociais
(Lacan, 1974).
Esses dois
dados históricos – Freud como vítima do racismo e Lacan como alguém que
antecipou seu crescimento – mostram que a questão racial nunca foi um tema
externo à psicanálise. Ela está no coração da própria experiência desses
autores, ligada a perseguições, exílios, massacres. Ao mesmo tempo, o racismo
não é apenas um fenômeno de “ideias ruins” ou “falta de informação”: ele se
repete, reaparece, se reinventa, mesmo em sociedades que se dizem democráticas,
educadas e “tolerantes”.
Este ensaio
parte de uma tese central: A psicanálise pode ajudar a enfrentar o racismo
porque oferece uma leitura dos seus mecanismos inconscientes, cria um espaço
para transformar ódios em palavra e aponta os limites das respostas puramente
racionais ou morais.
Não se trata
de dizer que a psicanálise “resolve” o racismo, como se fosse uma cura mágica.
Trata‑se,
antes de tudo, de mostrar que, sem tocar nas dimensões
emocionais profundas, ou seja, emoções e sentimentos que sustentam a discriminação (medo, nojo, inveja, raiva, ódio, vergonha
etc.), políticas públicas e
discursos antirracistas correm o risco de ficar pela metade.
Para
desenvolver esse argumento, organizei a presente discussão em três ângulos
(lentes) complementares:
1 - O racismo
como projeção e como “estranho inquietante” (Freud).
2 - O consultório (e outros espaços de fala) como
lugar para transformar ódio em elaboração, em vez de violência.
3 - O alerta
de Lacan sobre a intensificação da segregação e o uso da psicanálise para
pensar políticas e práticas antirracistas.
Primeira
lente: o racismo como projeção do “estranho inquietante”
Uma das
grandes contribuições de Freud foi mostrar que não somos inteiramente donos da
nossa própria psiquê. Existe em nós um “inconsciente” que guarda desejos, medos
e impulsos que, muitas vezes, não queremos reconhecer (Freud, 1930). Quando não
aceitamos certos conteúdos dentro de nós, tendemos a “jogá‑los” no outro... esse movimento é chamado
de projeção (atribuir ao próximo, algo que não suporto
em mim).
Freud
descreveu mecanismos pelos quais pessoas ou grupos projetam em minorias aquilo
que não conseguem assumir como parte de si: agressividade, sexualidade,
impulsos de dominação, fraqueza, pobreza, entre outros. Em “O mal‑estar
na civilização” (1930), ele
mostra como sociedades chamadas “civilizadas” precisam lidar com um grande problema: o excesso de
agressividade humana. Como não podemos sair
batendo e matando livremente, essa agressividade é
recalcada – empurrada para o inconsciente. Mas ela não desaparece: reaparece muitas vezes na forma de hostilidade ao
“estrangeiro”, ao “de fora”, ao diferente (Freud, 1930).
No racismo,
esse mecanismo fica visível: o grupo dominante tende a imaginar o grupo
racializado como perigoso, violento, sexualmente descontrolado ou moralmente
inferior. Muito do que é atribuído ao outro são, na verdade, fantasias que
seguem uma lógica interna: o outro encarna aquilo que não quero ver em mim ou
no meu grupo. Isso vale para o antissemitismo que perseguiu Freud, para o
racismo antinegro, para a islamofobia contemporânea, entre outros.
Freud também
cunhou a expressão “estranho inquietante” (em alemão, das Unheimliche), para
falar de experiências nas quais algo é ao mesmo tempo familiar e perturbador. O
diferente nos incomoda não só porque é “outro”, mas justamente porque, de algum
modo, nos espelha, devolve algo nosso que rejeitamos.
Esse conceito
ajuda a entender por que o racismo costuma ser tão irracional: não basta
mostrar dados, estatísticas ou leis; as emoções continuam fortes. O sujeito
racista, muitas vezes, diz: “Eu sei que não faz sentido, mas eu sinto assim”. É
justamente aí que entra a importância de uma abordagem que leve em conta o
inconsciente.
Jacques Lacan,
relendo Freud no século XX, acrescenta um ponto essencial: o racismo não é
apenas um produto de “ódios antigos”, mas também uma forma típica de sintoma na
sociedade capitalista. Em “Televisão” (Lacan, 1974), ele sugere que o chamado
“discurso do capitalista” aumenta o isolamento das pessoas, promove uma lógica
de consumo e competição e enfraquece os laços comunitários. Em um cenário de
incerteza e crise, cresce a tentação de encontrar culpados... quase sempre
aqueles já marcados por diferenças raciais, étnicas ou religiosas.
Desse modo, a
psicanálise nos convida a ver o racismo não só como erro moral ou falta de
educação, mas como um modo de organizar angústias diante de um mundo instável.
O racismo oferece uma “explicação simples” para o mal‑estar: “Eles são o problema”.
Entender esse mecanismo não é
justificar o racismo; é justamente o contrário: é desmontar sua engrenagem
inconsciente.
Segunda
lente: o lugar para transformar ódio em palavra
Se o racismo
tem raízes inconscientes, uma pergunta imediata é: o que fazer com esse
conhecimento? A psicanálise nasce como uma prática clínica, um tipo de
tratamento baseado na fala – o famoso “falar cura”. Isso não significa que
falar apaga a história ou muda leis, mas que, sem transformar a maneira como os
sujeitos se relacionam com seus próprios afetos, o risco de repetição da
violência permanece.
No consultório
psicanalítico, o paciente é convidado a falar livremente, inclusive sobre seus
preconceitos, medos, fantasias racistas, invejas e ressentimentos. Em vez de
ser julgado moralmente, ele é interpretado. O objetivo não é “absolver” ou
“condenar”, e sim tornar consciente o que está em jogo naquelas representações.
O que a
clínica mostra? Que muitas expressões de racismo estão ligadas a histórias de
humilhação, sentimentos de inferioridade, frustrações sociais e familiares,
traumas diversos. Frantz Fanon, psiquiatra e pensador fundamental das lutas
anticoloniais, mostrou como o negro colonizado internaliza a visão negativa que
o colonizador tem dele, passando a sentir vergonha do próprio corpo, da própria
língua, da própria origem (Fanon, 1952). A análise, nesse contexto, pode ajudar
tanto pessoas brancas a encarar seu racismo quanto pessoas negras a elaborar o
trauma do racismo sofrido, em vez de apenas suportá‑lo
silenciosamente.
Um dos
principais argumentos contra o uso da psicanálise no debate sobre racismo é o
de que ela seria “individualista demais”, preocupada apenas com casos
particulares, sem alcançar a dimensão estrutural, histórica e política. É uma
crítica pertinente, que ajudou a deslocar a psicanálise do lugar de suposta
teoria universal e neutra.
Contudo, é
possível responder a essa crítica de maneira mais elaborada. Primeiro, a
psicanálise nunca se limitou ao consultório tradicional. Existem experiências
de escuta psicanalítica em escolas, em serviços públicos, em comunidades
populares, em centros de acolhimento de migrantes, em organizações de direitos
humanos, entre outros contextos. No Brasil, por exemplo, autoras como Maria
Aparecida Bento (2017) têm articulado psicanálise e questão racial em espaços
coletivos, mostrando como o racismo estrutura a subjetividade de negros e
brancos, e como rodas de conversa e escuta qualificada podem desencadear novas
formas de ação política.
Segundo, o
próprio Freud escreveu sobre “psicologia das massas” (Freud, 1921), analisando
como grupos humanos se organizam em torno de líderes, ideais e ódios
compartilhados. Ou seja, a psicanálise tem, desde cedo, ferramentas para pensar
fenômenos coletivos, e não apenas individuais.
Um efeito
interessante da escuta psicanalítica é a passagem da culpa difusa para a
responsabilidade concreta. Muitos sujeitos, ao se depararem com a temática
racial, ou negam o problema (“não sou racista, isso é exagero”) ou ficam presos
em uma culpa estéril (“sou privilegiado, logo sou horrível”). Nenhuma dessas
posições, por si só, leva à mudança.
Na análise, o
sujeito é convidado a se perguntar: “O que eu faço com isso que descubro em
mim?”, “como participo – mesmo sem querer – da manutenção do racismo?”, “que
lugar ocupo nessa história?”. Trata‑se de sair do moralismo (que
alterna acusação e autopunição) para
entrar em uma ética que reconhece o desejo e a
responsabilidade, ou seja, que pergunta: “O que você decide fazer, a partir do que sabe de si e do mundo?”
Terceira
lente: Lacan, a segregação e as políticas antirracistas
Entre 1967 e
1970, Lacan chegou a um diagnóstico incômodo: o mundo caminhava para um aumento
das formas de segregação. Ele dizia isso observando o avanço do consumo de
massa, das desigualdades econômicas, do declínio de certas figuras de
autoridade tradicionais e do crescimento de nacionalismos agressivos (Lacan,
1974). Em vez de produzir uma humanidade mais igualitária, o desenvolvimento
técnico e econômico produzia também novos modos de exclusão.
Na teoria
lacaniana, o termo “Real” indica aquilo que não pode ser totalmente
simbolizado, explicado ou integrado... um ponto de impossibilidade, de trauma,
de excesso. O racismo, sob essa perspectiva, aponta para um “Real” da história:
genocídios, escravidão, colonização, violência policial, desigualdade de acesso
a direitos, tudo isso deixa marcas que não se resolvem apenas com discursos de
“harmonia racial” ou campanhas pontuais.
Achille Mbembe
(2016), ao falar em “crítica da razão negra”, mostra como a modernidade
ocidental se construiu sobre a figura do negro como não‑humano,
mercadoria, corpo explorável até o limite
da morte. Esse passado não é um capítulo fechado; ele se prolonga nas formas atuais de precarização da vida negra. Reconhecer esse Real – que
inclui a dimensão inconsciente, mas também a material – é passo obrigatório para
qualquer política séria de
enfrentamento do racismo.
É importante
evitar dois extremos: o de achar que a psicanálise deve “mandar” na política e
o de achar que ela não tem nada a dizer sobre políticas públicas. Um ponto de
equilíbrio possível é este: a psicanálise não fornece receitas prontas de
política, mas pode ajudar a formular perguntas melhores e a evitar ilusões. Por
exemplo, saber que o racismo se alimenta de angústias e fantasias projetivas
indica que não basta criminalizar o discurso de ódio (o que é necessário), sem
ao mesmo tempo abrir espaços de fala, educação e elaboração simbólica. Do
contrário, o ódio recalcado tende a retornar de maneira ainda mais violenta.
Da mesma
forma, políticas como as cotas raciais em universidades e concursos, defendidas
por diversos estudos empíricos e teóricos, podem ser lidas à luz da psicanálise
como tentativas de reconhecer e responder a um Real de exclusão histórica. Não
se trata apenas de “dar oportunidades”, mas de alterar os lugares simbólicos:
quem é visto como legítimo ocupante de uma vaga de prestígio? Quem é
reconhecido como sujeito de saber?
Programas de
formação antirracista em escolas, hospitais, empresas e órgãos públicos, quando
incorporam elementos psicanalíticos, também podem ser mais profundos: em vez de
apenas informar “É proibido discriminar”, permitem que as pessoas falem de seus
medos, resistências e fantasias, para que possam trabalhar isso e não apenas
repetir o discurso politicamente correto na superfície.
Vários autores
aclamados atualmente têm explorado essas interfaces. Fanon (1952) já fazia isso
ao articular sua prática clínica com a luta anticolonial na Argélia. Maria
Aparecida Bento (2017) faz algo semelhante ao mostrar como o silêncio sobre o
privilégio branco no Brasil é sustentado por defesas psíquicas, e como a
psicanálise pode contribuir para quebrar esse “pacto narcísico” da branquitude.
Mbembe (2016) traz a dimensão histórica e filosófica, mas não ignora as
implicações subjetivas de viver em um mundo que hierarquiza vidas.
A partir
dessas contribuições, podemos dizer: a psicanálise se torna um lugar
imprescindível (não o único, mas um entre outros) para que ódio, violência,
segregação e racismo encontrem outra saída que não o ato violento. Ela se soma
a outras abordagens (jurídicas, sociológicas, históricas, políticas) para atuar
não só sobre as estruturas, mas também sobre os sujeitos que reproduzem ou
resistem a essas estruturas.
O que a
psicanálise pode (e não pode) fazer contra o racismo?
Retomando as três lentes discutidas, podemos sintetizar:
Freud e a projeção: o
racismo aparece como forma de lidar com angústias internas, projetando no outro
aquilo que não suportamos em nós mesmos. Essa compreensão permite desmontar a
falsa naturalidade e a suposta “evidência” dos estereótipos raciais.
A clínica como espaço de
transformação: ao invés de agir o ódio na forma de violência, o sujeito
pode falar sobre ele, reconhecer sua história, suas feridas e
responsabilidades. Individual ou coletivamente, abrir espaço de escuta é
condição para que algo realmente mude na maneira como as pessoas se relacionam
com a diferença.
Lacan, o Real e as políticas:
o racismo é sintoma de um mundo marcado por desigualdades profundas e por laços
sociais abalados. A psicanálise não oferece soluções técnicas, mas ajuda a não
minimizar nem negar o núcleo traumático dessa história; ao contrário, insiste
em que é preciso olhá‑lo de frente.
As
consequências dessa visão são importantes. Para a própria psicanálise, isso
significa abandonar qualquer pretensão de neutralidade diante do racismo:
analistas, pesquisadores e instituições psicanalíticas são convocados a rever
seus próprios preconceitos, seus cânones, suas práticas de atendimento e
formação. Para a sociedade em geral, significa reconhecer que a luta
antirracista não se faz apenas com leis, mas também com trabalho paciente sobre
o imaginário, as emoções e o inconsciente coletivo.
Freud, em um
famoso diálogo por carta com Einstein sobre a guerra, afirmou que “tudo o que
promove o desenvolvimento da cultura trabalha contra a guerra” (Freud, 1933).
Hoje, poderíamos ampliar essa ideia: tudo o que favorece a elaboração
simbólica, a escuta e o reconhecimento do outro trabalha contra o racismo. A
psicanálise, quando se expõe ao mundo e se deixa interpelar pelas vítimas da
segregação, pode ser uma das vozes que ajudam a transformar ódio bruto em
palavra – e palavra em ação responsável.
Referências
Bento, M. A. S. (2017). Psicanálise, racismo e subjetividade:
escutas em territórios periféricos. São Paulo, SP: Perspectiva.
Fanon, F. (1952). Pele negra, máscaras brancas (R. da Silveira,
Trad.). Salvador, BA: Fator. (Trabalho original publicado em 1952)
Freud, S. (1921). Psicologia de grupo e análise do ego. In S. Freud, Edição
standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol.
XVIII). Rio de Janeiro, RJ: Imago.
Freud, S. (1930). O mal‑estar na civilização. In S. Freud, Edição
standard brasileira das obras psicológicas
completas de Sigmund Freud (Vol. XXI). Rio de Janeiro, RJ: Imago.
Freud, S. (1933). Por que a guerra? In S. Freud, Novas conferências
introdutórias à psicanálise e outros trabalhos (1932–1936). Rio de Janeiro,
RJ: Imago.
Lacan, J. (1974). Televisão (V. Ribeiro, Trad.). Rio de
Janeiro, RJ: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1973)
Mbembe, A. (2016). Crítica da razão negra (S. C. Araújo,
Trad.). São Paulo, SP: n‑1 edições.
(Trabalho original publicado em 2013)
* Severo-Santos é psicanalista
clínico (formação em Psicanálise Clínica pelo IBRAT) com trajetória
interdisciplinar nas áreas da saúde, das ciências humanas e do ambiente. É
graduado em Educação Física (UFSM), Gestão Ambiental (Unifael) e Ciência
Política (Uninter), mestre em Saúde (UFSC) e doutor em Psicologia (AWU) e em
Ciências do Ambiente (UFT). Possui diversas especializações, entre elas em
Psicologia Organizacional, Fisiologia Aplicada à Saúde, Psicanálise Avançada,
Ecopsicologia, Neurociência do Comportamento Humano, Neuropsicopedagogia e
Terapia Cognitivo-Comportamental aplicada ao alto desempenho. Faixa preta de
judô, jiu-jitsu e jiu-jitsu tradicional, atua há mais de 40 anos com artes
marciais, docência e pesquisa, articulando corpo, subjetividade e meio ambiente
em seus projetos. Como homem negro, gaúcho, ateu e progressista sua trajetória
acadêmica e profissional é atravessada pela experiência violenta da
racialização, que se intensificou especialmente no contexto de extremismo
político que vigora desde às eleições de 2018 e da pandemia de Covid-19. Essa
vivência marca sua produção intelectual, voltada à compreensão crítica das
relações entre racismo, meio ambiente, saúde, desempenho e subjetividade.
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